Triângulo – As raízes e a voz de uma comunidade

Carros e motos se tumultuam nos arredores da Praça do Giradouro em um fluxo constante. Esse é o ponto onde toda a Região Metropolitana do Cariri converge. No alto, a bandeira de Juazeiro do Norte tremula, enquanto a movimentação segue, com diferentes causas e destinos. Algumas pessoas aproveitam o fim da tarde para praticarem exercícios físicos na praça, cada um a seu ritmo. Alguns fazem uma leve caminhada, outros arriscam uma corrida. A mudança no ritmo se estende ao tráfego. Cada um tem seu destino. Boa parte está ali só de passagem, talvez voltando para casa depois de um dia de trabalho. Tantos outros estão chegando para um passeio ao shopping. Há ainda o movimento dos universitários, e aqueles que por algum infortúnio se dirigem ao hospital. 
É à margem de toda essa confusão que uma comunidade cresce, silenciosa, ou muitas vezes, silenciada. O Bairro Triângulo abrange a agitação e a calmaria, a burguesia e o proletariado, de um lado é um bairro nobre, do outro é invisível. O fato é que hoje é um dos maiores bairros de Juazeiro do Norte. Talvez faça jus a vontade de um dos seus primeiros e mais honrados moradores, que sempre acreditou que aquela área seria um dia o centro da cidade. 

OS PRIMÓRDIOS 

O ano era 1979. Juazeiro do Norte crescia a cada década, junto com a devoção ao Padre Cícero. As áreas da cidade que à época ainda eram pouco habitadas começaram a receber novos moradores, muitos vindos até de outros estados. Foi assim que o perímetro ao redor da Avenida Padre Cícero começaram a receber suas primeiras casas. E dessa forma, de maneira tímida, ia nascendo o Bairro Triângulo. 

A nova comunidade cresceu nutrida pelos cuidados de uma mãe, a força de uma mulher. Maria da Anunciação, carinhosamente conhecida como Mãe Santa, teve participação fundamental na emancipação do bairro. Ao lado do seu esposo, Valderi Furtado, foi responsável pelo desenvolvimento social e de infraestrutura do Triângulo em seus primeiros anos. 

Quando o casal fez sua casa no bairro, no fim dos anos 70, só havia outras três moradias nas proximidades. Nessa época, até mesmo para conseguir o básico era necessária uma batalha. A água para consumo era trazida em baldes pelos moradores, em um longo percurso, muitas vezes trazida da ICASA (Indústria e Comércio de Algodão S/A), antiga fábrica de algodão do município. Ter água saindo das torneiras parecia um sonho bem distante, mas não para Valderi.

No quadro, foto de Valderi Furtado

Tão logo sua casa ficou pronta, Valderi buscou criar relações com os políticos da época, prefeito e vereadores, pautando as necessidades do lugar. Mãe Santa relatou o desafio que eles enfrentaram. Para conseguirem água encanada, a dedicação foi intensa. 

Mãe Santa relembra com carinho a coragem e dedicação do esposo. “Ele foi atrás de igreja, calçamento, energia, escola, água, padaria, mercado, e assim o povo foi chegando e formando as ruas, comprando terreno e fazendo suas casas, e hoje tá aí essa cidade”. 

Depois de todo o esforço, a água e a luz chegaram. Mas as demandas do casal não pararam por aí. A partir da inquietação dos dois, o bairro ganhou escola, posto de saúde e até a padaria. “Ele dizia que queria uma escola aqui no bairro pros nossos filhos e netos”. Com estes avanços, a população foi aumentando gradativamente. 

Mãe Santa com seu filho, o Pai Bira

Isso trazia grande empolgação para Valderir. Mãe Santa contou que ele sempre dizia, com convicção: “Aqui ainda vai ser o centro da cidade, um dia”. Podemos dizer que a profecia se concretizou. Embora o Triângulo não seja o centro propriamente dito, é naquela região que todo o eixo Crajubar se encontra. O bairro hoje conta com hospitais, shopping center, universidades, e prédios luxuosos. 

O TRIÂNGULO HOJE

Apesar destes avanços, se faz necessário ressaltar que muitas das riquezas e do desenvolvimento do Bairro Triângulo parecem não pertencer à comunidade. Claro que os moradores têm condições bem melhores de infraestrutura em comparação com o final dos anos 70. Mas, novidades como o shopping center e as universidades não parecem ter uma identidade tão forte com o Triângulo, sendo tratados como um bem de Juazeiro do Norte como um todo (e na verdade, acessíveis para uma parcela da população). 

Mas, esses são assuntos para uma outra matéria. Existem muitas outras coisas a se ressaltar na vivência comunitária do Triângulo. Os moradores costumam descrever a vivência como tranquila e ressaltam o desenvolvimento do comércio como ponto importante. 

Durante a maior parte do dia, ao caminhar pelas ruas, é comum encontrar pessoas conversando nas calçadas. Fora o murmúrio desses grupos, o silêncio só é quebrado por crianças que usam as ruas para andar de bicicleta ou passear com suas bonecas. São cenas pouco comuns nos dias de hoje em outros lugares de Juazeiro do Norte. 

Mercado Municipal, um dos principais centros de comércio do bairro

O mercado municipal é o principal ponto de comércio da comunidade. Aberto de domingo à domingo, os moradores podem comprar tudo o que desejam, sem precisar se deslocar para o Centro da cidade. O mercado tem de tudo, frutas, verduras, lojas de roupas, restaurantes… 

Iranilda Evangelista, comerciante e moradora do bairro

Quem trabalha no Mercado é Iranilda Evangelista. Moradora da comunidade, ela trabalha vendendo hortaliças há 9 anos. A vendedora destacou que a movimentação é maior nos finais de semana. Dona de casa, a comerciante diz que sua rotina é de tranquilidade. Seus filhos se sentem seguros na vizinhança e também na escola, que segundo ela, tem um ensino de qualidade.

Poucas ruas acima do Mercado, fica a Paróquia de São João Bosco. É lá que se concentra grande parte da fé da comunidade. A igreja é conduzida pelo Padre Francisco das Chagas Alves, que chegou há pouco tempo no Triângulo.

Igreja de São João Bosco
Maylane, no interior da Igreja de São João Bosco

Maylane, que mora no bairro há 18 anos, e faz parte das pastorais do dízimo e da liturgia da Paróquia fala positivamente sobre sua experiência. “A gente convive tranquilamente com todas as pessoas aqui do Bairro. Tem bastante comércio próximo, e ao invés de precisarmos ir ao Centro ou outro bairro mais distante para resolver alguma coisa, a gente resolve tudo aqui mesmo”. 

As ruas do Triângulo também são receptivas aos novos moradores. O Seu Manoel Francisco disse que se mudou para o bairro há pouco tempo, menos de quatro meses, mas já se sente em casa. Ele mora em uma rua ao lado do Mercado Municipal, com acesso a ponto de ônibus quase na porta de casa. Manoel mora sozinho, mas diz que seus vizinhos o acolheram como parte da família. 

Seu Manoel, novo morador do Triângulo

As circunstâncias que levaram ele a se mudar para o Triângulo não foram as melhores. Antes morador do bairro João Cabral, Seu Manoel se desentendeu com a família. Ele não deu detalhes da confusão, mas contou que foi com pesar que precisou encontrar uma nova casa. O Triângulo foi o ambiente perfeito para Manoel Francisco recomeçar. Além de ter tudo perto de casa, e da proximidade com os vizinhos, ele se reencontrou com a fé. 

​Morando próximo da Igreja de São João Bosco, o senhor começou a frequentar as missas, e logo foi chamado pelo Padre Francisco à compor o coral da Paróquia, coisa que fazia noutros tempos de sua vida, em outras paróquias. A felicidade é perceptível na sua forma de falar, sorrindo enquanto contava a sua história. 

Diante de todos estes relatos, e da própria experiência andando pelas ruas do Triângulo é necessário destruir qualquer tipo de preconceito. Como destacam os moradores, a violência é um problema crônico do Brasil, e está presente em qualquer lugar do país. Assim, se faz necessário tirar o estigma colocado sobre algumas comunidades de Juazeiro do Norte, e mostrar toda a beleza e cultura presentes nestes lugares. 

LEGADO DE VALDERI 

Como foi dito, os esforços de Valderi Furtado e Mãe Santa foram de suma importância para construir o que o bairro é hoje. Infelizmente, Valderi não viveu o suficiente para ver como a sua comunidade se desenvolveu. Em 1992 ele faleceu, mas sua luta e força de vontade seguem vivos até hoje. 

Além de terem sido importante para o advindo de toda a infraestrutura do Triângulo, o casal sempre ajudou os mais necessitados. “Nós andávamos até de madrugada dentro dos matos caçando gente pra ajudar, doando feira e leite. Era um pessoal bem pobrezinho que morava bem por longe”, relembrou Mãe Santa. 

Hoje em dia, quem desenvolve um grande trabalho social na localidade é a Aureneide, ou simplesmente Neide, como é conhecida a diretora da ONG Asa Branca. Morando no bairro há muitos anos, Neide resolveu ajudar a comunidade com projetos sociais, mediação de conflitos e liderança comunitária. 

Outro projeto que de destaca é o Circo Escola Sangine. A escola tem por objetivo principal educar crianças e jovens através da arte circense, oferecendo um espaço onde a imaginação e a criatividade artística das crianças são valorizadas e estimuladas. 

Aurineide Barbosa fala sobre o projeto Asa Branca, que ela desenvolve no bairro Triângulo em Juazeiro do Norte

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